
|
.:: Meu perfil ::. BRASIL, Mulher, Portuguese, German, Livros, Viagens, Música; esportes; arte e cultura MSN - |

PARTE II
Outro ponto a ressaltar é que o Governo Militar parece estar confinado a regiões específicas do globo, como a nossa América Latina, historicamente pródiga neste gênero de governo. Mas na verdade, ele ocorre em todo o Terceiro Mundo, e encontra-se ausente do Primeiro Mundo, muito embora os países hoje ricos tenham passado por outras modalidades de ditadura até bem mais atrozes que os atrapalhados autoritarismos sul-americanos. Por que isso? Bem, temos aí uma pista que pode nos conduzir à resposta da questão que formulamos.
Em primeiro lugar, devemos nos certificar de que os governos militares encontram-se efetivamente ausentes da história dos países que hoje compõem o Primeiro Mundo. Aparentemente, há alguns contra-exemplos. O nazi-fascismo, há menos de meio século atrás, foi belicista ao extremo. Hitler e Mussolini envergavam uniforme militar, embora fossem civis, e no estado que criaram, a função militar tinha importância e dignidade máximas, chegando a obscurecer as funções civis (Querem canhões ou manteiga? Canhões, respondia a multidão). Mas sequer passava pela cabeça desses homens - Hitler, Mussolini e os demais - que o exército devesse governar, sentido que se dá na América Latina a governo militar. O que se achava era que o exército, longe de mandar, devia, isso sim, ser disciplinado com energia, aliás pelo bem de sua capacidade de combater na guerra. A autoridade política não cabia aos generais, mas ao Partido, dirigido por próceres civis, e sobretudo, ao Líder Supremo, que pairava acima de todos, inclusive dos militares. O nazi-fascismo não é um exemplo de governo militar.
Alguns livros de História costumam referir-se ao governo de Cromwell, na Inglaterra do século XVII, como tendo sido uma ditadura militar. Cromwell foi efetivamente um ditador, e governava efetivamente sustentado por um exército - o exército dos puritanos, que sob muitos aspectos equivalia a um exército moderno, com comando, hierarquia e disciplina. Entretanto, o que mantinha esse exército unido - em torno de si próprio e em torno de Cromwell - não era a disciplina castrense nem o espírito de corporação, como ocorre com os regimes militares da época atual. Eles eram religiosos fanáticos, e seus líderes acalentavam pretensões de reorganizar a sociedade baseada no Antigo Testamento, ao mesmo tempo em que sonhavam com conquistas democráticas que só seriam implementadas dali a 200 anos - projeto pouco prático, que por isso mesmo mostrou-se inexeqüível. O regime de Cromwell estava mais para uma teocracia do que para um regime militar, e por ocasião da restauração monárquica, o exército de puritanos foi dissolvido, deixando claro que não surgira para se tornar uma instituição permanente destinada a influir na política.
Outro caso a ser examinado é o de Napoleão Bonaparte. Ele era um militar de carreira que tornou-se general, deu um golpe de estado e governou como ditador antes de coroar-se imperador. Essa trajetória parece familiar a dezenas de generais-presidentes que saltam dos livros de História de nosso continente. Seria Napoleão equivalente a um caudilho sul-americano?
Não exatamente. Napoleão era efetivamente um militar de carreira, e foi efetivamente alçado ao poder por um exército que podia ser considerado quase moderno - o exército dos burgueses, baseado no recrutamento dos cidadãos e nas promoções por mérito, ao contrário dos antigos corpos de mercenários comandados pelos nobres. Entretanto, faltou a seu governo uma característica essencial para se conceituar um regime militar pelos padrões atuais - a presença do exército como instituição no poder. Não havia uma junta, ou uma alta esfera de oficiais influindo na condução da política. Militares não foram distribuídos em cargos civis de alto escalão - estes cargos foram ofertados a políticos burgueses. Napoleão foi um ditador cuja fonte de sustentação não era o sentimento corporativo dos colegas de farda, mas sim uma classe social - a dita burguesia. A maior parte dos integrantes de seu exército, aliás, não era de militares de carreira, mas sim de voluntários, e no auge de seu poderio, a maioria da tropa não era sequer de franceses, mas de soldados originários de outros países europeus. Napoleão não foi um ditador militar - pode-se dizer que, ao assumir o poder, teve início um rápido processo, durante o qual ele efetivamente deixou de ser um general para tornar-se um imperador, com funções tanto civis como militares. Hoje em dia, Napoleão é lembrado tanto por seus feitos no campo de batalha quanto por sua obra jurídica e administrativa. Apenas durante os 100 dias, quando retornou ao poder e logo foi deposto por seus generais, sua trajetória pode ser comparada a de um golpista sul-americano típico.